A tristeza é senhora

Eu ouvia essa música na minha adolescência. E ficava lendo a letra no papel do CD e pensando…

 “a lágrima clara sobre a pele escura / a noite a chuva que cai lá fora

Enfim, tristeza, para mim, surgiu senhora. Talvez pelo vulcão de energia que eu vivia. Pelos vários livros de autoajuda que, leves e rápidos de ler, contemplavam a alegria de viver. Estava sempre com a lista dos “mais lidos de autoajuda da revista VEJA”, marcados em meu check-list: lidos! Acho que isso criava em mim uma áurea de positivismo. E me auxiliava como parceiros, meio místicos, meio felizes, meio tristes, mas auxiliando um pouco meu português.

Mas… “Alguma coisa acontece no quando agora em mim” e vem as dores do parto de viver?

O grande poder transformador… Cantava Caetano, siga cantando.

Ainda temos, Caetano. E… o nosso poder transforma a Dor (?)

E minha vida transformada em história ainda me orgulha.

Um parênteses: perdão a todos aqueles que eu possa ter, vulcanicamente, em intensos sentimentos, aportado, abortado, machucado.

Aquele perdão profundo de não olhar o outro.

Podemos nos assumir egoístas? Cá, você, em seus sonhos?

Para me curar da visão narcisista de um propósito menor que eu…. Eu, de verdade, graaaande, envolve todos. Porque todos somos… Um.  

Quero reler este texto daqui uns 5, 10, 15 anos, e me orgulhar também! Então, és hoje, um marco da minha existência?
Em plena segunda-feira!

Enfim, tenho medos sombrios que, quando me acalmo e me assusto, no meu próprio colo, eu choro.

E me vejo só… Eu e os meus medos. Sinto aquela menina pequena agitada, no susto e na necessidade de ser afagada.

Hoje, eu a aceito, assim, tão fora de si!
Hoje eu a aceito, assim, tão linda, pequena e faceira.

Bela, não pela beleza externa, mas de integridade de estar presente de si mesma.

Pela inocência e espontaneidade, pela necessidade de ser vista, pela doçura que há na fragilidade. Há beleza naquilo que não é robusto.
Coitado dos robustos…

Nos meus trinta e tantos, vejo uma mulher nada feita, mas faceira, como a menina pequena. Que doideira!

Vamos lá! Então hoje é um marco.
Percebo a vida assim…Tristeza, senhora.
E o que eu faço com esse sentimento tão adulto? Nada.
Eu o aceito.
Porque se eu vivo, ele também passa por mim, humana, mundana, espontânea.

Tenho reconhecido que para “ser humano” temos que nos aprofundar em todos os sentimentos e, não nos montarmos em cima deles.
Escalarmos…. Escalonarmos. Ou escondê-los e não vivê-los.

Sabia que há mais sentimentos negativos que positivos catalogados? Ex: alegria, tristeza, raiva, medo, amor. 

Eles são importantes adubos para esse tal florescimento que é viver.
E logo, a primavera também passa.
Aceite os ciclos.  
Viver, nem sempre é florescer, amadas flores da terra.

Singela vida, sejamos mais flores: árvores, arbustos, não embustes!

Nem de si mesmos, nem com os outros.


Aceitarmos sermos completos: raiz, caule, árvore, tronco, flores, frutos. Todos juntos, em um ciclo completo na nossa própria fotossíntese do viver.  

Feitos de histórias, de sentimentos, emoções, energeticamente condensamos, reprimimos e expressamos como lidamos com o nosso viver. Somos poeiras de estrelas.

Então, voltando ao filme da minha vida, me vejo acalentando aquela menina, não apenas agitada, mas aquela que ouvia as conversas dos outros, deitada na cama… Assustada.

Minha cama era o meu reduto.

Hoje, meu lar é toda a minha cama.

Eu consegui crescer o espaço que me aporta, me abarca, me faz porto para que eu possa me fazer barco e… Navegar no mundo!

Mas, pera lá: eu não tenho receios, eu tenho muitos medos!

E para que eu não detenha-os e eles não me parem, não digo:
– Não venham! Não cheguem aqui!

Hoje, eu tive a coragem de encarar um bocado deles surgido da menina até a mulher de hoje. Eu quero aceitá-los e me inundar no seu pranto. Saber que eles coexistem comigo. Não escondê-los distantes.

E, não, eu não posso deixá-los para trás. Fingir que não fazem parte da minha “mochila da existência”. Eu não posso mais tirá-los mais.

Porque nesse marco, aqui consagrado, me abençoo e agradeço pelo universo que me protege.

Porque enquanto somos cegos, como bêbados inconsequentes, há um proteção inerte, insana.

És hora de abarcar o barco e seguir navegando no mundo.

Fazendo, não mais da minha cama (nem só do meu lar) o meu porto.
Mas aportar o meu barco no mundo. Escancarar.

Posso, eu, sair para uma viagem única que me dê o céu como o local onde coloco o meu cais, meu porto?  Posso?

Podemos tudo, enquanto nutrirmos nossa consciência de  indivíduos empáticos.

E, quanto mais eu penso/vivo e aceito “a tristeza é senhora” um relâmpago pensamento meu: “quem sabe eu vá me fechar, me cercar do seguro mundo meu…”

Sigo em ritual: – Eu me abençoo, agradecida pela história que me fez e me forma, me informa, até aqui.

É muita gratidão pela existência fundida em tanta história confundida, amada, amassada.

Sigo ainda mais alçada, vela pronta, estendida, saio da toca.

Abre, sente o vento. Encontra nesse mar que é a vida, cheio de grandes contextos, uma breve oportunidade de transformar sentimentos, emoções, percursos, bifurcações, todas tolhidas na minha rota, nada definida.

Uma parceria, uma conduta, um texto, uma música… Presentes que me fundem para que nada, nem um grão, me defina, nem te definhas…

Simplesmente viva.

“A tristeza é senhora

Desde que o samba é samba é assim

A lágrima clara sobre a pele escura

A noite a chuva que cai lá fora

Solidão apavora

Tudo demorando em ser tão ruim

Mais alguma coisa acontece no quando agora em mim

Cantando eu mando a tristeza embora”

O samba ainda vai nascer

O samba ainda não chegou

O samba não vai morrer

Veja o dia ainda não raiou

O samba é pai do prazer

O samba é filho da dor

O grande poder transformador”

Julia Scheibel

Mestre em Comunicação com ênfase em Com. Organizacional. Possui MBA em Gestão da comunicação nas Organizações e graduação em Propaganda e Marketing pela Universidade Paulista (2003) com certificado de honra ao mérito pelo projeto Experimental RANTEC - Tecnologia em Ranicultura. Atuou nas áreas de comunicação das instituições públicas: Ministério da Educação, na Secretaria de Ensino Médio e Tecnológico pelo Programa PNUD, na Assessoria de Comunicação do Ministério do Planejamento, Orçamento e Gestão e no Ministério da Cultura. Há 10 anos no Sistema Indústria, iniciou na Gerência de Relações Públicas em organização de eventos de grande porte, gestão de softwares e projetos de relacionamento e hoje atua na gestão orçamentária, planos de ações, pareceres sobre pesquisas e gestão da comunicação da Diretoria de Comunicação do Sistema Indústria - CNI, SESI, SENAI. Atua também, como atendimento às entidade, na gestão e coordenação das apresentações diferenciadas dos Diretores e Presidência do Sistema Indústria.

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