Vem de bike!

Quando a gente decide sentir o vento no rosto é incompatível carregar uma mochila pesada.

Isso vale para tudo na vida: sentimentos, apegos, pessoas, necessaire com produtos de higiene, escolha do tipo de roupa.

Uma pergunta que eu tomo para mim é:

  • Qual o tamanho da mochila de vida?
  • O que eu estou levando comigo que me pertence ou isto/aquilo (sentimentos, atitudes, histórias, quereres) pertence a outrem?

Sim, estamos todos conectados. Somos um. Somos todos um todo. Um com o universo, um com a natureza.  

Para a sua própria essência desabrochar e viver aquilo que te move, para ter mobilidade, é importante não se responsabilizar pela vida de outras pessoas.

E, conjuntamente, é preciso que você se responsabilize pela sua própria vida, ok?!

Isso inclui os filhos, queridos pais. Sim! Desapegue-se do querer formá-los. E eu falo como mãe.

Quando geramos um filho, o que vemos o nascer é a natureza geradora.

Somos ponte.

Nasce junto um sentimento de leoa. Certo. Mas há muita experiência em vida que te tira esse lado completamente animal.

Com o tempo, percebemos que este ser que convive conosco tem um jeito dele de lidar com a vida. E é importante existir a liberdade nesta reação para que haja a verdadeira criação (a sua como educador que está a desabrochar – e a criação dele como ser – deixe-o livre para viver).

Apazigue esse leão/leoa.

Por mais que estejamos convivendo com um indivíduo – reforcei essa palavra para que a individualidade seja mesmo preservada – são dois seres humanos (pai/mãe, filho/filha) compartilhando um ambiente. Ou três, quatro, oito. Não importa. Dividimos um ambiente com diferentes indivíduos.

Saibamos não nos responsabilizarmos por outrem, para não justificarmos sofrimentos e/ou alegrias, ou mesmo servidão, para com essa nova vida. Eleve-se no modo criação. Rompa as barreiras familiares e os padrões. Pai/mãe infeliz, responsável mas infeliz, gera apenas denso ambiente e modelos arcaicos.

O modelo de educação envolve pertencimento, não necessariamente tradições o farão amável.

Minha irmã uma vez me disse “Um serviço que se faz ao outro e que ele pode fazer torna-se um desserviço”. Lembre disso, “generosos manipuladores e cobradores posteriores” de plantão.

Dar além do que se quer é cobrança na certa. Prefiro dar alegrias. Prefiro o ar que me transpira.

É lindo dizer que minha vida ganhou sentido quando fui mãe. E foi.

Mas, e se eu deixar de ser? Se esse meu cargo, meu status quo se perder?

E se eu perder meu filho, há de perder o sentido da minha vida? Posso viver com tamanha dor?

Bem, eu conheci há duas semanas uma mulher linda, alegre, que perdeu o filho em um tiroteio que teve na frente de casa. Há 5 anos.

– Como pode uma mulher ser linda e alegre com uma história de vida tão sofrida? – Pensei. E logo que pensei, eu a consagrei como mais uma mestra de vida.

Conheço várias pessoas com histórias de vida sofrida e que são julgadas por serem alegres. Tamanha a discrepância e a falta de amor entre os seres no convívio social. Tsc, tsc, tsc…  

Ao invés de aprendermos com alguém que buscou lá dentro do âmago não levar dor ao outro, ao ambiente, somos tão absurdamente julgadores, sentenciadores, que julgamos um ser, ser simplesmente alegre. Atrás de muito sorriso adulto tem muita dor.

Não são vivências livres. São espíritos que sabem que o que se leva dessa vida é a vida que se leva. Trabalham diariamente o transpor e transmutar do viver.

– Como pode existir o olhar do julgamento superior ao do aprendizado e da contemplação? Humanos desumanos. Demasiadamente desumanos.

  • O que você leva na sua mochila?

Leva leve essa vida que te apazigua ou te aprisiona.

Tua mente, tal qual seu corpo, necessita de exercícios diários de bem quereres.

Persista no olhar presente, presenteie-se com o ser que você deseja ser.

Vitimização é a pura essência de quem escolhe não escolher. E por não escolher, vive a se lamentar, a responsabilizar outrem pela sua não escolha.

Não escolha é uma escolha. E torna-se, então, a vítima o verdadeiro fardo, um espinho, uma farpa como indivíduo no ambiente com-partilhado.

Por mais que se esteja em uma etapa de vida difícil, pare por um momento e sinta:

  • O que eu estou carregando comigo? Boas lembranças ou histórias de vida sofrida?
  • Se foi difícil, o que posso resgatar disso e que me gere um aprendizado?

Eu vejo tanta injustiça, tantos homens que agem em um machismo inverso e perverso, revestidos de boas ações. Mas, sinto que toda dor que se faz com o outro não há como não fazer a si mesmo, também.

Somos como um grande corpo humano interligado em veias e conexões.

Cada sofrimento há de ser um percalço para enfrentarmos, batalharmos, e seguirmos nosso caminho com dignidade.

Sair do egocentrismo, aprendermos com o diferente, ampliarmos nosso espectro de visão, desconstruirmos o que construímos para amplificar o ser e a essência que somos.

Não somos estáveis, somos mutantes. Estamos nos fazendo, nos gerando e não somente envelhecendo. Pense e se construa.

Por vezes, converso com alguém que me pede muitos auxílios e avalio:

  • O que ele me pede, eu quero fazer?
  • Porque se eu não quiser, eu vou começar a me lamuriar também.

Então, tento acessar meus sentimentos e, quando não envolve nenhuma falta ao outro no convívio social, resgatando o que posso/quero e devo fazer, já me sinto conectada com o meu ser.

E posso mudar de ideia depois. Não sou refém de uma escolha (essa frase ecoou forte aqui). Ela pode, sim, ser alterada. Aquela percepção de tempos atrás também se modifica.

Assumindo a minha responsabilidade, pelas novas e velhas ações, colho e acolho o ser que me re-crio. Busco evolução e caminho. Sem muitos fardos e dados a atirar.

E, nesse resgate de mim, em um eterno encontro com a abstração, com o imaginário que me leva a completude do meu ser – em leves momentos do dia – sinto o vento no meu corpo. Vou de bike, hoje, combinado. Com o brother, às sextas. Casual day.

Pode ser que o viver seja deixar de pensar.  Escolho poucas coisas para carregar.

Consigo, assim, não ter bagagem para o avião – e não aguardar a mala na esteira. Vou de bike para o trabalho. Menos coisas, sem deixar o charme. Música e sol para todo o lado. Canto.

E, nas minhas relações, quando sinto que ali, no pedido, na trincheira ou na fala persuasiva, manipuladora, persiste alguém que prende meu caminhar – ou mesmo nos percalços dos caminhos que eu mesma me perco – talvez tenha colocado uma pedra na minha mochila. Ou no sapato.

Retiro.

E peso as medidas, avalio minha responsabilidade. E virtuo a minha habilidade.

Quem eu quero ser envolve tornar o meu caminhar alguém melhor. Tem passeios que desvirtuam, mas apenas são pedrinhas, sapatos. De chinelo ou cromo alemão apertado, importo para mim e para os demais. Eu me balizo, me preservo e reservo o entendimento da liberdade de cada um.

Dessa vida, só se leva a vida que gente leva.

Eu recomendo que reveja sua mochila e se desconstrua.

Vai de bike!

Às sextas ou segundas.

Julia Scheibel

Mestre em Comunicação com ênfase em Com. Organizacional. Possui MBA em Gestão da comunicação nas Organizações e graduação em Propaganda e Marketing pela Universidade Paulista (2003) com certificado de honra ao mérito pelo projeto Experimental RANTEC - Tecnologia em Ranicultura. Atuou nas áreas de comunicação das instituições públicas: Ministério da Educação, na Secretaria de Ensino Médio e Tecnológico pelo Programa PNUD, na Assessoria de Comunicação do Ministério do Planejamento, Orçamento e Gestão e no Ministério da Cultura. Há 10 anos no Sistema Indústria, iniciou na Gerência de Relações Públicas em organização de eventos de grande porte, gestão de softwares e projetos de relacionamento e hoje atua na gestão orçamentária, planos de ações, pareceres sobre pesquisas e gestão da comunicação da Diretoria de Comunicação do Sistema Indústria - CNI, SESI, SENAI. Atua também, como atendimento às entidade, na gestão e coordenação das apresentações diferenciadas dos Diretores e Presidência do Sistema Indústria.

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