O indivíduo hipermoderno e esquizofrênico de Lipovestky e a complexidade das organizações

 

 

É através deste questionamento que faremos uma relação entre as doenças vulneráveis do homem hipermoderno (doenças psicossociais) e os problemas nas organizações.

Em indivíduos hipermodernos, hipernarcisitas e hiperindividualistas onde o vínculo com os outros é frágil tanto em moralidade e participação (integração), quanto na visão social como a relação de equipe, de contribuição altruísta em um setor de uma organização/empresa. E essas mudanças trouxeram complexos problemas interpessoais, de relacionamento, de hierarquia dentro do ambiente organizacional.

O declínio da valorização do coletivo sobre o individual (valorização do eu) envolve a manipulação dos relacionamentos e do querer pessoal se sobressaindo em ações, para além da moral e ética, e da construção coletiva de resultadores, o que corrói a harmonia dentro das empresas e dos resultados de equipe.

Já, na vida individual, a oportunidade de escolhas (e perdas) criam sensações de angústia e medos. Estes sentimentos geram buscas de soluções rápidas como drogas lícitas ou ilícitas (para as doenças psicossociais como depressão, ansiedade, fobias, medos, problemas afetivos, emocionais). E essas soluções vêem sem analisar, de fato, as questões inter-relacionais como sociais, psicológicas e de interação com o meio.

As empresas, em visão macro, também vivem sentimentos do mundo hipermoderno como incertezas, angústias e medos dentro do ambiente mercadológico e competitivo. E, suas soluções rápidas vêem de consultorias externas, gestão de pessoas cada vez mais competitivas, gestão com foco em resultados e soluções imediatistas.

O ser humano hipermoderno busca prever e organizar o futuro para acalantar seus medos. As empresas buscam planejamentos e metas bem definidas para acalmarem suas angústias e preocupações com o mercado competitivo.

O hipermoderno tem liberdade no ato de consumir, sendo superficial e frágil, sem compreender seus sentimentos e sua essência. O trabalho mecanizado e automatizado empobreceu empresas de criatividade e inovação como parte dos resultados vindos de pessoas e melhorias nos seus processos.

A hiperindividualização, somada a relação virtual sustentada pelas tecnologias, enfraqueceu os vínculos humanos. Como proceder em trabalho em equipe dentro das empresas se convivemos com pessoas hiperindivistas e hipernarcistas? A relação do ser humano consigo próprio e no seu meio é esquizofrênica.

Como as empresas que hoje precisam atuar em rede, com foco em trabalho em equipe mantém um bom desempenho e uma orquestração das atividades pelas diversas áreas, se os vínculos entre esses profissionais é cada dia mais escasso?

A valorização da superficialidade, da impressão, criou seres humanos midiáticos e, na vertente das organizações – como sistemas – as mesmas não ficaram pra trás. Trabalhando a imagem externa também são divergentes de suas culturas internas, possuem excesso de rotinas desnecessárias, comunicação divergente, frustrações de projetos e programas, objetivos pouco convergentes com o que é mantido rotineiramente, além de processos falhos e falta de visão/missão por boa parte dos profissionais.

Os sistemas organizacionais, assim como os seres humanos, são sistemas complexos e orgânicos que interagem com o meio social em que vivem (o ambiente). Sendo sistemas, podemos comparar suas reações e ações – as ações individuais (indivíduos) e as do grupo (social).

Richard Sennet cita que a maneira como o trabalho envolve a vida moderna é uma das corrosões do caráter humano, alterando o ser humano e o próprio sistema familiar.

“A família é um sistema que é atacado por todas as vertentes de uma “era hipermodema”, e tenta se adaptar ao mundo globalizado, o que promove uma mudança rápida de hábitos que nem sempre favorecem os seus membros. A falta de tempo é colocada entre as principais causas da ausência de afeto entre as pessoas, que são diretamente afetadas pelo estresse cotidiano. O estresse é uma tensão que causa ruptura no equilíbrio interno do organismo e que pode ser considerado como uma desregulagem de todo o sistema corpo e mente, e não somente um estado passageiro de tensão ou aborrecimento na vida de alguém. O excesso de trabalho e a pressão por produção são fontes de desorganização da saúde mental. […] A constituição de um organismo saudável dependeria, não de evitar o contato com as causas ou riscos, mas de saber interagir, harmonizando quantidades, tempos, velocidades e forças presentes no corpo (Casso, Pablo)

As soluções para atender aos problemas das organizações envolvem, também, em comparação com o ser humano, o aspecto da interação e harmonização de quantidades (estoques, pessoas, projetos, objetos, objetivos, sistemas), tempos (de projetos, de carga de trabalho, de duração de produtos), velocidades (de produção, de gestão, de processos) e forças (de prioridades, de hierarquias, de valores).

Faz-se necessária uma busca de ações orquestradas, em conjuntos com diversas áreas multidisciplinares, para contribuir com os sistemas organizacionais (e individuais) mantendo os objetivos macro das organizações sem pormenorizar a saúde dos indivíduos e seus espaços de interação familiar.

Com foco na valorização do ser humano e do ambiente sustentável para as próximas gerações – acima de qualquer dos aspectos do ambiente competitivo mercadológico – é possível encontrarmos a harmonia e a valoração do que é importante para o ser humano e para as organizações.

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Julia Scheibel

Mestre em Comunicação com ênfase em Com. Organizacional. Possui MBA em Gestão da comunicação nas Organizações e graduação em Propaganda e Marketing pela Universidade Paulista (2003) com certificado de honra ao mérito pelo projeto Experimental RANTEC - Tecnologia em Ranicultura. Atuou nas áreas de comunicação das instituições públicas: Ministério da Educação, na Secretaria de Ensino Médio e Tecnológico pelo Programa PNUD, na Assessoria de Comunicação do Ministério do Planejamento, Orçamento e Gestão e no Ministério da Cultura. Há 10 anos no Sistema Indústria, iniciou na Gerência de Relações Públicas em organização de eventos de grande porte, gestão de softwares e projetos de relacionamento e hoje atua na gestão orçamentária, planos de ações, pareceres sobre pesquisas e gestão da comunicação da Diretoria de Comunicação do Sistema Indústria - CNI, SESI, SENAI. Atua também, como atendimento às entidade, na gestão e coordenação das apresentações diferenciadas dos Diretores e Presidência do Sistema Indústria.

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